terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Consciência


Estávamos à mesa conversando; eu e dois de nossos filhos. Em nossa casa, conversamos muito com eles, e a mesa é um ótimo lugar para isto. Desde pequenos, analisamos juntos o mundo, situações e comportamentos à nossa volta, o conteúdo do que consomem (da comida à cultura), buscando sempre pautar a educação que lhes damos em princípios e valores,como principal ferramenta para forjar seu caráter.

Pois outro dia estávamos falando da memória que eles têm de seus bisavós, e o pequeno, disse: "Eu gostaria de ter aproveitado mais meus bisavós."- falando dos que já se foram com um ar, assim, meio triste.
Eu, tentando fazer uma escavação arqueológica em seu pensamento, para entender o que ele estava pensando, perguntei:  "O que você quer dizer, meu filho?"

E ele, de seus 10 anos, ainda incompletos, disse: "Quando convivi com meus bisavós, eu era muito pequeno, não tinha consciência de quem eles eram, nem de que um dia eles iriam embora para sempre! Se soubesse teria aproveitado mais deles!"

Buscando presença de espírito para sair bem da situação, eu quis valorizar sua experiência, mostrando o outro lado da moeda. E disse: "É verdade, meu filho, você era muito pequeno, não tinha como perceber as coisas de forma diferente. Mas podemos ver tudo de mais de um ângulo: se você parar pra pensar, vai ver que é um menino privilegiado, pelo simples fato de conviver com seus bisavós. Hoje, as pessoas estão casando cada vez mais tarde, quando casam; tendo filhos ainda mais tarde, quando têm, o que aumenta muito a distância entre as gerações. Por isto, muitas crianças não conhecem nem os avós, ou convivem por pouco tempo, o que se dirá dos bisavós. Então, o seu caso é uma excessão, você conheceu e pôde conviver com vários de seu bisavós. Não é bacana?

Diante deste "arremate na costura", parece que o pequeno saiu aliviado e mais animado.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Sobre o Natal, Jesus e algumas notícias que não saem nos jornais



Cada vez que a terra dá mais uma volta em torno do sol, tudo se renova.

A despeito de nossas muitas opiniões, de todo saber humano e de toda a ciência, assistimos, como meros espectadores, à sinfonia do maestro Todo Poderoso que, soberano, rege as estações para que se sucedam, e a natureza, para que, apesar de seu sofrimento, insista em florescer, procriar explodir em sol e calor, filhotes, flores, frutos, cores, e água abundante dos céus que faz tudo verdejar e crescer.

Um ano se passou. Agora, temos a oportunidade de fazer uma pausa e refletir. Mais que desejar, saber agradecer.

Quem sabe deixar de lado a histeria do mundo, que mercantiliza o que não tem preço – sim, pois o que é essencial em nossa vida não pode ser comprado; mas é recebido de graça e pela Graça: o amor, saúde, e Paz verdadeiros,  princípios e valores, um caráter reto, onde podemos obter? Pare um pouco e reflita.

Num livro escrito no século XVI chamado O Peregrino, encontrei uma frase que dizia algo mais ou menos assim: “O mundo é uma grande feira. Deus é o dono da feira. Seu filho Jesus viveu como homem na terra. Esteve aqui, por 33 anos, e não comprou nem um artigo da feira.”
Que descoberta! Quer dizer que não preciso de NADA da feira para ter TUDO o que eu preciso! Que libertação!
E quer dizer ainda que o que eu realmente preciso NÃO está nos Shoppings, na internet, ou nos outlets dos EUA!! Uau!! Que maravilha!

O que as Escrituras ensinam é que em Deus posso todas as coisas, que sua Graça me basta, e que se estou Nele, NADA vai me faltar. Posso dormir tranqüila, não tenho o que temer! Não preciso andar ansiosa com o que vou vestir ou comer, não temo pelo amanhã e não me atemorizo pelas más notícias, pois sou sua filha, estou segura, e sou herdeira Dele em todas as coisas, inclusive em suas riquezas eternas, que a traça e a ferrugem não corroem, e os ladrões não roubam!

Gente, eu não preciso ir ao Shopping comprar NADA! Aliás, para obter os valiosos bens, impagáveis, citados aqui, tenho que entrar no sossego, na reflexão e no silêncio, aos pés do meu Deus, é lá que vou encontrá-los.

Vocês sabem que muitas notícias importantes nunca são publicadas nos jornais. Se você acha que é bem informado porque assina a Folha ou lê o New York Times, forget about it ! Notícias eternas não saem nos jornais!

Fora outras realidades sérias, extensas e encobertas do mundo que são “muito tristes”, não rendem votos ou não vendem jornais, por isto, quase nunca aparecem nos jornais oficiais.

Mas o que eu quero contar pra vocês é uma verdade que pode transformar o mundo, e abalar os interesses capitalistas do Natal. Não deu nos jornais, mas “Jesus desapareceu da manjedoura, ele não está lá!” Foi feita uma busca no Jardim do Túmulo, na antiga propriedade de José de Arimatéia, em Jerusalém, e o túmulo está vazio, ele também não está lá!

Com tanta festa e comércio ao redor do mundo, em homenagem a Jesus, ele deveria ser o principal convidado, não acham? Mas afinal, onde ele está?
           
Queridos, Jesus morreu e ressuscitou, ele vive, está bem perto de nós. Pão da Vida, Cordeiro de Deus, bom Pastor, Todo Poderoso, Aquele que era, que é, e que há de vir. O mesmo eternamente, Salvador, Redentor, pura Graça e Amor. Aquele que morreu em nosso lugar, para que todo aquele que nele crer não pereça, mais tenha vida eterna.

Jesus não pediu para celebrarmos seu nascimento mas sim sua morte, que traz vida eterna para aqueles que nele crêem. “Fazei isto em memória de mim.” Assim ele nos ensinou a lembramos seu corpo moído na cruz por amor de nós. A cruz é essencial, não a manjedoura. Na cruz ele levou sobre si nossos pecados; morrer ali foi seu principal objetivo, seu alvo incondicional, a razão pela qual ele viveu. Sem sua morte na cruz não teríamos acesso à salvação, a uma eternidade em Deus.

Se tudo isto parece estranho pra você, se você não acredita, ou não concorda, ouça: Deus é soberano, eterno, e Todo-Poderoso; Ele não depende de nossa opinião. É diante dele que vamos prestar contas sobre nossos atos, e é sob Seus princípios que seremos avaliados. Nossas opiniões e certezas diante Dele são como pó!

Portanto, queridos e queridas, neste tempo possível de pausa e reflexão, rendam-se a este Jesus que é puro amor, que vive, que tem o melhor para nós, muito além do que pensamos ou desejamos. “Eu é que sei que pensamentos tenho a vosso respeito, pensamentos de Paz e não de mal, para alcançardes o fim que desejais.” Ele vive, reina, governa sobre toda a Terra. Ele é o Senhor. Deixe que seja também Senhor de sua vida, enquanto há tempo.

Ao serem repreendidos, os discípulos de Jesus se incomodaram e Jesus lhes deu liberdade para irem embora, mas eles disseram: “Pra onde iremos, Senhor, se só tu tens palavras de vida eterna?” Assim também é com nossa vida: recebemos livre arbítrio para fazer o que quisermos, mas nossas próprias verdades muitas vezes levam à becos sem saída, e à morte.

Os caminhos de Deus são de amor, misericórdia, e são eternos. Hoje, enquanto o fôlego da vida está em você, enquanto você está vivo e é livre para fazer uma escolha consciente, largue tudo o que tem te ocupado tanto, se aproxime dele e se apegue somente à verdade, ao único que pode te dar vida em abundância. O que você tem vivido é só uma sombra da vida que você pode ter em Jesus. Fora dele não há Vida. Acredite. Seu coração tem uma porta cuja chave está do lado de dentro. Só você pode abrí-la. Jesus está à porta e bate. Que tal convidá-lo para, neste Natal, se assentar com você à mesa e ceiar?





domingo, 3 de junho de 2012

INFÂNCIA


Tardes longas, alaranjadas
pés no chão
pão assando na cozinha
tempo,
contemplação.

No céu, incontáveis estrelas
em casa, luz de lampião.
Rastreando siris na areia
pra dormir ao som do mar.

Num tempo guardado no tempo,
o avô cuida do jardim,
a avó escolhe verduras e frutas
do carroceiro que sempre passa.

Contando histórias e rindo
podemos passar uma tarde
-quisá uma vida-
inteira juntos.

A casa é viva
Tem sol, comida, amor.
Sem saber que tudo será lembrança,
nos alimentamos dessa infância,
pra toda a vida.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Jocelin e os arándanos, ou 44 km para comer framboesas

Ela vive perto perto do vulcão Osorno, na região central do Chile. Estuda na cidade com nome de vulcão, e trabalha no campo, numa plantação de frambuesas e arándanos (as famosas blueberries, no Brasil, mirtilos). 

Foi assim que a conheci. Passávamos por uma pequena estrada em direção a Paso Samoré, percorrendo os 351 km que separam Puerto Varas, no Chile, de Bariloche, porta da da Patagônia argentina. Esta é a única passagem  possível de carro entre os dois países, nesta região dos lagos andinos, atravessando a Cordilheira dos Andes.

Na estrada, nehuma parada decente à vista. De repente, uma casinha com dois anúncios: Arándanos e Frambuesas. Foi impossível não dar meia volta e parar para provar as frutas.

Simples e simpática, como típica chilena do interior, Jocelin trouxe, de dentro da casa, duas vasilhas enormes repletas de frambuesas e arándanos fresquinhos. Após comprar uma 'medida' de cada, perguntei se poderia conhecer a plantação. A moça gentilmente nos conduziu à área anterior à casa, através de um portão que dava acesso a uma imensa plantação das frutas patagônicas, com milhares de pés repletos, cujo número não se podia contar. Ao indagar se podíamos comer do pé, respondeu, num espanhol bem emboladinho:
"-Poden comer todo lo que quieran!"

Nos contou que aquela plantação tinha produzido, na safra atual, 45 mil kilos de framboesas, mas que grande parte iria se perder. Diante do meu espanto, explicou: o maior cliente deste fazendeiro, para exportação, é a Sérvia. Neste ano, o país do leste europeu produziu mais framboesas que o esperado, portanto sua importação diminuiu. A venda local, no varejo, nesta pequena propriedade chilena, é de somente 5 mil kg, e o consumo das frutas no país é baixo. Portanto, grande parte dos 40 mil kilos restantes iria se perder.

Descobertas econômicas feitas, perguntei ainda sobre nomes de árvores gigantes e dos cuidados com a plantação, indagações que ela não soube responder, dizendo não ter 'interesse sobre o assunto'.

A postura blasé da moça, numa realidade tão rica e distinta da nossa, me fez pensar no quanto a curiosidade é ligada à inteligência. Quem é inteligente costuma ser curioso, e esta curiosidade muitas vezes nos leva a conhecer não só o ambiente em que vivemos, como amplia sem limites nosso conhecimento do mundo.

Esta contradição me fez pensar o quanto não valorizamos o ambiente em que vivemos - pois certamente esta moça habita numa das regiões mais lindas do planeta -, e o quanto as novas gerações se desinteressam e perdem o conhecimento sobre a natureza e sua dinâmica, seja na Patagônia ou em qualquer parte do mundo.

Bem, mas seguindo viagem, já dentro do carro, preparando para nos despedirmos, Jocelin, aos 45 minutos do segundo tempo, pergunta:  

-"De donde sos?"
- "De Brasil." respondemos. Ao que ela, prontamente, rebate:
-"Hay muchos reptiles en Brasil????
Apesar de atônita com a pergunta 'Indiana Jones' da moça, respondo com naturalidade, para não constrangê-la:
-"En las grandes ciudades no. E estas son la verdadera selva." Jocelin insiste:

- "Hay anacondas?" Mesmo sabendo que esta é uma imagem clichê do Brasil no exterior, ficamos perplexos.
Já entrando no carro, respondo, fazendo um certo suspense:
-"No. Pero tenga cuidado: el animal mas peligroso que existe es el ser humano."

Ela sorri, mas creio que, por segurança, jamais virá ao Brasil.

Agora temos 44 km para comer framboesas, antes de chegar à fronteira. Não podemos atravessá-la carregando flores, frutos ou sementes.

Nesta terra longíqua, indescritível e ainda tão pouco explorada, além de encher nossos olhos e alma, descansarmos e aprendermos muito, descobrimos uma oportunidade real para o comércio de berries. Este ano, só nesta pequena propriedade, 40 toneladas de framboesas disponíveis.
Alguém se habilita?

terça-feira, 20 de setembro de 2011

A terra e a semente

Para Davi

 

- Pai, o que tem dentro da semente?
-Tem o miolo, e lá dentro tem tudo o que ela precisa ...
- pra virar árvore - completou o menino.
- Exatamente.
- Então a gente põe a semente dentro da terra e a terra"choca" a semente?
- É como se fosse isto, meu filho.
- Ah, entendi! É como se a semente fosse o ovo e a terra a galinha!

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Conversa com meu melhor amigo

                  Nesta madrugada de chuva fina e silêncio, depois de tamanha seca, eu me levanto para te encontrar e agradecer. Tudo é ao mesmo tempo tão misterioso e simples. Faço parte, de forma consciente, desta imensa, harmônica e maravilhosa Criação. Não nasci dentro de uma caixa, mas sobre um planeta perfeito (embora maltratado), e sob um céu tropical, com o qual navegadores de todos os tempos sonharam e  descreveram. Por favor, não me deixe esquecer de contemplá-lo, para que eu me lembre de tão pequena que sou, e de que sou feita da mesma matéria que as estrelas, embora não entenda como o infinito pode caber dentro de mim. Aliás, o mistério não é para ser compreendido, mas reverenciado. O navegador experiente, ainda que numa pequena canoa, conhece o mar, e o temor que tem por ele é o que garante sua sobrevivência. 
                 Eu te agradeço, pois mesmo sendo tão pequena, tenho podido conhecer segredos profundos do seu coração. A cada experiência contigo conheço mais de seu caráter e aprendo a ser melhor, eu pelo menos tento. Aliás, você é especialista em pessoas. Quanto mais entrega existe, mais lapidação. Sua especialidade é transformar pedras brutas em diamantes, e esta obra é permanente. Jardineiro, ourives, terapeuta, cozinheiro, amigo, PAI: Não há nada que você não saiba e ensine. Como é bom ver você diante de mim abrindo o caminho e me estendendo a mão, me ajudando em TODAS as horas. Quando estou na sua presença muitas vezes apenas choro, pois o seu amor é grande demais e não existe nada que se compare a ele: "Nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem o presente , nem o provir, nem a altura, nem a profundidade poderá nos separar do seu amor." Por favor, não me deixe nunca dedicar meu tempo, minha atenção ou minhas finanças a qualquer coisa menor que você, por melhor que pareça, pois NADA me preencherá como você me preenche.
                      Apenas um amigo seu, o mais íntimo, abraçado a você, pôde ouvir as batidas do seu coração. Obrigada, porque, mesmo sendo tão imperfeita, você me permite ficar tão perto de você, que é como se ouvisse seu coração bater. E, mais ainda, sei que você conhece cada batida do meu coração, assim como cada passo, antes de ser dado, ou cada palavra minha, quando ainda é pensamento. Aliás, isto parece impossível, mas eu sei que você conhece minha alma melhor do que eu mesma. E não é só isto: você me olha e me conhece com verdadeiro Amor. Quando você me escaneia, vejo quanto sou limitada, mas "o seu poder se aperfeiçoa na minha fraqueza". Muito obrigada, porque, embora pemaneça num mundo superficial e terreno, passei a viver segundo valores celestiais, e agora sei que "há muitas coisas boas, mas eu devo preferir as excelentes". Mas como saber o que são coisas boas ou excelentes? AS COISAS BOAS SÃO AS QUE O MUNDO OFERECE, AS EXCELENTES SÃO AS DO TEU REINO.
                 Finalmente, Senhor Deus, eu te peço que a sua pessoa seja revelada e conhecida de cada amigo e amiga meus que lêem este texto, pois eu os amo e desejo o melhor para cada um. Que cada um seja tocado por seu amor, que abram a porta e te convidem a entrar e ceiar em seus corações, recebendo seu filho Jesus em suas vidas como Senhor e Salvador. Que passem a ter livre acesso a ti, unicamente através de seu filho.  E que entendam que não escrevo palavras bonitas, mas falo da Verdade, e de uma realidade disponível hoje para todo aquele que te recebe, e diante da qual todos nós um dia prestaremos contas. Que o seu Espírito os guarde, ensine e conduza. Nesta madrugada, esta é a minha oração.

terça-feira, 12 de julho de 2011

Para Vânia



            Minha mãe é uma mulher delicada. Discreta, prefere observar primeiro, pra depois, talvez, emitir sua opinião. Esta discrição anda de mãos dadas com sua nobreza de caráter e dedicação.        
          Numa amizade, é difícil encontrar alguém tão fiel. Como está escrito: “há amigos mais chegados que irmãos.” Privilegiados aqueles que ganham seu coração. Ela vai viver pra você, e pode até atravessar um oceano, se preciso for, para fazer algo como comprar um remédio, um presente, mandar cobrir um botão, ou te visitar.
         Se você adoecer gravemente, é bem provável que ela te acompanhe de perto, até você ficar bom. No dia da alta, se sua família não estiver presente, com certeza ela vai te buscar. Exagero? Pergunte a seus amigos e familiares. 
         Mas quando se ama de verdade é assim mesmo: chegamos a um ponto em que cuidar do outro é tão bom quanto cuidar de si mesmo, pois o outro se torna uma parte sua. E cuidar e amar se tornam prioridades em sua vida que, fique atento, te darão mais recompensas que muitas honras e glórias do mundo.
         É como cultivar um jardim: vai dar formiga, pulgão. Uma árvore cresce, a outra não vai pra frente. Do projeto à realidade, muito trabalho e adequação.
         Uma árvore de pé franco, plantada da semente, demora sete anos pra dar frutos pela primeira vez. Com gente não é diferente: amar e educar são investimentos a longo prazo. Você cansa, não vê retorno, até desanima. Mas quando nasce o primeiro fruto, pode ser uma pitanga sozinha no pé, ou uma declaração de amor de um filho, que satisfação ímpar! Melhor ainda é ver, no decorrer do tempo, os frutos que permanecem: retidão, caráter, maturidade, respeito, altruísmo, amor. Com minha mãe, aprendi que investir em nossa descendência, de forma presente e amorosa, é o mais importante projeto que pode haver. É nossa forma de permanecer, se desdobrando.
         Posso dizer que minha mãe tem colhido bons frutos. Afinal, de dois filhos, ganhar seis netos, mostra uma semente com excelente coeficiente de multiplicação. E, como costumo dizer, estamos conseguindo salvar nossa família que, de tão pequena, estava ameaçada de extinção.
         Bem, brincadeiras à parte, é preciso dizer que quem mais conhece o coração de uma mulher é, em primeiro lugar: Jesus, e logo a seguir..... responda. Seus maridos? Hum, alguns podem até conseguir desvendar este mistério, mas em geral, este posto é ocupado pelos filhos menores, afinal, é deles o reino dos céus.
         Você pode subestimar o poder analítico de uma criança, mas examine seu próprio coração e comece a ‘pescar’ as lembranças mais longínquas que guarda de sua mãe.
         Aposto que você se lembra vividamente do gesto de suas mãos, de sua maneira de agir e reagir às mais diversas situações, ou ainda de hábitos prosaicos, como a cor de esmalte que ela mais gostava, ou de uma encantadora gaveta de presentes que ela mantinha para situações de necessidade.
         Estas são lembranças vivas que tenho da minha mãe. Corajosa, viajava sozinha conosco, muitas vezes dirigindo centenas de quilômetros pra chegar ao destino escolhido. Este modelo de mulher intrépida é referência não só pra mim como para muitas de minhas amigas que passaram a nos acompanhar nas férias, quando a fase “turma adolescente” se tornou inevitável. Brava, discutia até com motorista de caminhão, se fosse preciso, em nome da justiça e da defesa das crias.
         Nos duros anos de chumbo, nos criou com zelo e esforço, ao lado do nosso pai, sempre nos preservando, com sobriedade e auto-controle, da opressão e de situações difíceis que atingiram nosso país e família.
         Com ela aprendi a gostar de Chico Buarque, gênio sem par que compôs as trilhas sonoras de nossas vidas nos anos 1970. Tocava em casa estas e outras músicas ao violão, no tom discreto e melancólico da época, desta forma destilando tristezas e inquietações, e sublimando a necessidade de verbalizá-las. Seu repertório multiinstrumental foi inaugurado anos antes com o acordeon, tendo iniciado sua carreira ainda solteira, escondida de meu avô, pasmem, num programa do maestro Elias Salomé, na pioneira TV Itacolomi. Mais tarde aprendeu órgão, piano, espineta e hoje, ensaia tocar sua marimba de vidro. Pra tanto instrumento, é preciso quem toque. Portanto, o legado musical vem sendo passado com zelo aos filhos e netos, estes, despontando como a quarta geração de músicos da família. A música, ao que tudo indica, foi plantada na família pela saudosa vovó Dina, que se formou em canto e piano no Conservatório de Música, em 1933, fundando a primeira orquestra de mulheres de Belo Horizonte, e oficializando o talento que já existia entre as irmãs, Sinhá, Isaura e Dina, que tocavam, muitas vezes de improviso, a trilha do cinema-mudo de Sete Lagoas.
         Bem, como 70 anos não são 70 dias, é preciso agradecer. E celebrar. “Em tudo daí graças”, assim o apóstolo Paulo, preso por causa do Evangelho, nos ensinou. Desejo a você, mãe, a alegria do Senhor, e que rios de águas vivas fluam do seu ventre. Que você possa, aos 70 anos sonhar, e viver os sonhos de Deus pra você. Em nome da família, agradecemos a vocês, amigos,  irmãos. Vocês fazem parte desta história bordada, ponto a ponto, que se chama VIDA.